9.12.19

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próximas sessões

  • Sessão 6: 18 de janeiro 2020
Tema: A Nêspera.
Dia Internacional do Riso, escrever inspirados em Mário-Henrique Leiria.

  • Sessão 7: 1 de fevereiro 2020
Tema: Olha e escreve.
Histórias inspiradas em imagens.

  • Sessão 8: 15 de fevereiro 2020
Tema: Que coisa!
Histórias inspiradas em objectos.

  • Sessão 9: 29 de fevereiro 2020
Tema: Ainda não acabou.
Prolongar uma história, um livro.

  • Sessão 10: 7 de março 2020
Tema: Literatura Potencial.
Aniversário nascimento Georges Pérèc, escritas Oulipianas.

  • Sessão 11: 21 de março 2020
Tema: Vai-me a esses versos!
Dia Mundial da Poesia, aprendizes de poetas.



Sessões anteriores
2018
Sessão 1: 20 de outubro 2018  | ESCRITOR E LEITOR
Escrever para quem? Escritores à procura de um leitor. O leitor como ponto de partida para o texto.

Sessão 2: 3 de Novembro 2018 |   PALAVRA DESCONHECIDAS
O que nos dizem as palavras. Como decifrar significados. Escrever a partir de palavras obscuras.

Sessão 3: 17 de Novembro 2018 |  ESCRITA A VÁRIAS MÃOS.
cadavre exquis. A escrita passa a palavra. Escrever em colaboração.

Sessão 4: 1 de Dezembro 2018  | FORMAS – Os classificados
Precisa-se de protagonista. Vende-se página em branco.... Escrever a partir da forma e fórmula dos anúncios classificados.

2019
Outubro 2019 - nova série  curso+blog

Sessão 5: 15 de Dezembro 2018 |  VERDADE E FICÇÃO
Tão verdadeiro que parece história. Apagar as fronteiras entre real e ficção. Escrever para recontar a verdade.

Sessão 6: 26 janeiro 2019 | JOGOS DE PALAVRAS: TAUTOGRAMAS
Textos em que todas as palavras começam pela mesma letra.

Sessão 7: 9 fevereiro 2019 | TEXTOS PRESCRITIVOS
Escrever ficção através de fórmulas: receita, manual de instruções, indicações de uso, lavagem...

Sessão 8: 23 fevereiro | FLUXO DE CONSCIÊNCIA
Como apontar no papel o desconcerto da mente?

Sessão 9: 9 março | UMA HISTÓRIA POR DETRÁS DE UM POEMA.
Escrever um texto a partir de um poema comum a todos.

Sessão 10: 23 março | A MARAVILHOSA VIDA DE UM OBJECTO.
Escrever sobre um objecto prosaico.

Sessão 11: 27 de abril 2019| ESCRITA COLETIVA: CADÁVER ESQUISITO


Sessão 12: 18 maio 2019 | MIL PALAVRAS PARA UMA IMAGEM.
Escrever a partir de fotografias.


Sessão 13: 18 de maio 2019 | JOGOS DE PALAVRAS: PARÁFRASES
Alargar o vocabulário parafraseando adejctivos ou substantivos ou verbos.

Sessão 14: 1 de junho 2019 | TEXTOS PRESCRITIVOS
Escrever ficção através de fórmulas: receita, manual de instruções, indicações de uso, lavagem

Sessão 15: 29 de junho 2019 | O LUGAR DO OUTRO
Trocar o protagonista e escrever sob outros pontos de vista   


Sessão 1 – 12 de outubro 2019 | MAIS POR MENOS
Contar muito com poucas palavras. Histórias até 100 palavras.

Sessão 2 – 26 de outubro 2019 | PIRATARIA
Intertexto, pastiche, homenagens. Escrever a partir dos textos de outros.

Sessão 3 – 9 de novembro 2019 | QUEM FALA?
Discurso indireto livre e outras formas de dizer.

Sessão 4 – 23 de novembro 2019 | HAIKU
Aproximações aos poemas minimalistas japoneses.

Sessão 5 – 7 de dezembro 2019 | UM TEXTO NO SAPATINHO
Histórias-presentes, histórias com espírito de Natal. 

(foto:unsplash.com)







7.12.19

Um texto no sapatinho




Sessão 7 Dezembro: Um texto no sapatinho - Histórias com espírito de Natal

Um baralho de cartas com palavras de Natal e um Presépio em branco foram os pontos de partida para os textos da sessão.




História de José
José era um poeta que esperava desesperadamente a sua musa numa noite de Natal.
Olhava para as crianças mas a musa não vinha com elas
Olhava para as estrelas mas as estrelas não brilhavam para ele
Olhava para um peru inútil a tostar no forno velho e umas couves duras e secas
Olhava para um pinheiro frondoso de onde pendiam bolas coloridas e farrapos de neve inutilmente
Invejava o calor humano que derretia aquele Inverno pesado de águas
Já não descia o Pai - Natal pela chaminé como nas memórias dos tempos de antanho
Era um coração oposto ao mundo como diria o Pessoa

Há noites da alma que nem a noite de Natal consegue iluminar.
                                                                                                                                 Helena Campos


Desde os primórdios do tempo, quando o principio era o verbo e o verbo era a luz, estava marcado que em certa noite, a estrela maior surgiria refulgente sobre a cidade de David e conduziria três reis à encarnação de Deus feito Homem, o tão aguardado Messias, que traria a Boa Nova aos povos e a salvação à Humanidade.
A estrela ensonada, porém, perdeu-se no firmamento e pontilhou sobre vários pontos do planeta , hesitante sobre em que ponto deveria reverberar.
Mas afinal onde nasceria o Messias que ela deveria sinalizar com um banho de luz?
Foi numa estrada deserta, algures na Ásia menor, a norte do velho Nilo, a oeste das imponentes pirâmides, que localizou três homens trajados com faustosas roupas e imponentes coroas, montados em camelos, numa grande altercação por causa de um nome.
Que se chamava Melchior, não, que era Belchior, porque Melchior não constava do dicionário, que já o grande Homero dizia que não, que até remontava à República de Platão e figurava na ardida Biblioteca de Alexandria.
Que não interessava como é que se chamava, interessava que encontrassem a estrela que os dirigisse à encarnação do Messias, esse sim acima de todos os outros.
Um pobre pastor, assombrado com tamanha discussão entre tão nobres viajantes, simplesmente apontou a estrela aos reis e a apontou a manjedoura à estrela e esta pode finalmente iluminar a noite mais bela da História e os reis ajoelharam-se comovidos diante de Deus feito Homem na candura de um menino.
                                                                                                                                 Helena Campos


Palavras: bacalhau, barbas, branco, Reis Magos, lareira, bolo-rei, burro

Olhou em volta, franziu o sobrolho e pensou com os seus botões “mas porque é que eu ainda me meto nisto? É sempre a mesma coisa…” A fila para a caixa era gigantesca e as pessoas estavam como que sob o efeito de drogas, de olhos brilhantes, esgazeadas, com os seus carros a abarrotar de bacalhau, de bolo-rei e de outras tantas iguarias. “Véspera de Natal e eu no supermercado… Mas que burro! É que todos os anos é a mesma coisa. Eu quero lá saber do Pai Natal e das suas barbas brancas, dos Reis Magos ou do Menino Jesus. Só quero que este dia acabe, para eu me sentar em paz, em frente à lareira e tentar esquecer que é Natal.
                                                                                                                                    Rute Gonçalves

História de Baltazar
- Mas ainda falta muito para chegar? Ò Belchior tu disseste que se chegava lá num instante…
Belchior olhou para trás e sorriu – está quase – e apontou para a estrela que vinham a seguir há já vários dias. Baltazar abanou a cabeça, incrédulo. Estava montado em cina do camelo há tanto tempo, a dormir mal, a comer mal, a cheirar mal, e ainda por cima tinha de carregar a mirra. Já lhe doía tudo e, mais a mais, já não ia para novo.
-Mas quem é esta criança para termos de fazer este sacrifício todo?
- É um Príncipe – respondeu Gaspar.
“Pronto, então se é um Príncipe é capaz de valer a pena – pensou Baltazar. Certamente quando lá chegarmos termos um bela cama no palácio, uma farta refeição à nossa espera e, quem sabe, uma recompensa em ouro”. Animou-se com este pensamento e continuou. Depois de vários dias e várias noites de caminho, finalmente chegaram ao seu destino. Pararam em frente a um estábulo despido, gelado, com um burro e uma vaca escanzelados e um casal com ar de fome. Na manjedoura estava uma criança, nua sob uma coberta esfarrapada.
- “Cá está o nosso Príncipe” – gritou Belchior em êxtase.
- “Mas já chegámos? – Respondeu Baltazar, sem perceber nada. Então o Príncipe está na manjedoura? Se eu soubesse que era para isto não tinha vindo. Ó Belchior, da próxima não contes comigo.
                                                                                                                                Rute Gonçalves


História de Gaspar

Seguia as estrelas Gaspar
Na noite tão fria
Trazendo no peito um júbilo intenso
E pensando em Jesus, sem medo, sorria
E sonhava acordado em dar-lhe o incenso.

                                                                                                                                Rute Gonçalves



23.11.19

Haiku





Sessão 23 Novembro - Haiku


Desponta o dióspiro

o ramo dança
Suspiro de Deus

Ao sol da manhã
Os pássaros conversam
A noite acabou

Ao primeiro sol
O rio suspende a corrente

Espelho da manhã

                      colectivos





Graniza, chove em torrente
O guarda-chuva
Vai com o vento

A ventania sacode o tempo
Varetas partidas

A alma vai com o vento

A chuva seca
Os chapéus fecham-se
não era sem tempo


Folhas caídas
Num silêncio vegetal
Pássaros talvez

Penas como folhas
Pingos de silêncio
Pássaros talvez

Rasto de asas
Aroma de folhas perdidas
Pássaros talvez

Folhas como asas
Folhas tombadas pelo vento
Pássaros talvez
                                                   Helena Campos


O sabor frágil
Do dióspiro

Suspiro de deus

O vento suave
No cipreste
Suspiro de deus

Fatias laranja
Guardados no dióspiro
Suspiro de deus

Desponta o dióspiro
O ramo dança
Suspiro de deus

Mordo o dióspiro
O metal atravessa
A língua adormecida

A pele macia
Fulgor laranja
Mordo um dióspiro

De toque suave
mordo um dióspiro
o corpo agradece

a água corre,
não em mim
apenas pelo guarda chuva

um guarda chuva
agarra o inverno
este é o tempo

perdido no jardim
um guarda chuva esquecido
nosso inverno submerso

suspensa a máquina de costura
repousa sobre a mesa
o guarda chuva impõe-se


Das árvores altas
No chão claro do jardim
As folhas caídas
Folhas caídas do céu
Descem lentamente até ti
Divina passadeira

Aparece um caminho
Nas folhas dispersas pelo vento
As árvores tremem nuas

Folhas caídas
Desaparece o chão
Árvores choram
                             Francisco Feio





Aguardo a chuva 
Guardo-a no guarda chuva
Pinta-se o arco-íris
            
Folhas caídas ao luar
Anoiteceu breu a tocar o céu
Mãe já a sonhar
               
Ao primeiro sol 
O rio suspende a corrente 
Espelho da manhã

Abro fecho, fecho abro
Sol chuva, chuva sol
Guarda chuva pobre coitado
                                       Joana Dinis


Mordo o dióspiro
ao sol da manhã
Casa da avó

Folhas caídas
chão amarelo
o dia a murchar

gotas tremem
o guarda chuva
chora devagar
                       Cristina Borges






9.11.19

Discurso directo, indirecto, livre, livra....




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A sessão de 9 de Novembro foi dedicada ao discurso indirecto livre. Chegámos à conclusão de que as penas do Eça ou do Flaubert são uma delícia de ler, mas bem mais amargas de emular.
Mesmo assim não nos intimidámos - encarámos bravamente o exercício de continuar um diálogo de um conto do Mia Couto para depois o transformarmos no tal indirecto livre... Um directo que quase nos deixou K.O.
Mas o que é isso para nós...? Daqui a duas semanas há Haikus e aí vamos brilhar.

Hoje ficamos com o conto original:
Mia Couto, Uma Questão de Honra






26.10.19

Pirataria - parte II - Plágio




Sessão: 26 Outubro
TEMA: PIRATARIA´
Intertexto, pastiche, homenagens. Escrever a partir dos textos de outros.

Parte II: Plágio
Na segunda parte da sessão, a proposta foi escrever um texto com o título «O Plágio»


Kalypso

Baudrillard dizia que na era do ciberespaço tudo é cópia; não há originais. É como um jogo de espelhos em que tudo se reflete até ao infinito.

Quando acordou naquela manhã, Kalypso pensou estar nas cenas finais da Dama de Xangai. Para qualquer lado que se virasse, era a ela que via, de pé, a olhar para si própria. O pesadelo adensou-se na rua. Todas as pessoas com que se cruzava eram ela. Numa cidade como a sua, existiam agora 12 milhões de ela própria. Teve uma tontura profunda e colapsou com este pensamento. Numa cidade desta dimensão, nunca se fez tamanho silêncio.
Francisco Feio


O nosso Amor é como um plágio:
O que eu sinto és tu que dizes,
O que eu digo és tu que constróis.
E nunca tem fim esta imitação: há sempre um caminho que nos encontra antes de nos perdermos na noite.
O nosso tempo é como um espelho:
O teu reflexo imitando a vida
E as minhas mãos sempre frias, cortadas pelo vidro.
É certo que no fim deste dia de Outubro
Não sei quem plagia quem: se eu a ti, se tu a mim
Ou se o Amor a nós os dois.
Rute Gonçalves



Vitória e Joana desceram a Avenida Casal Ribeiro, na direção da Estefânia, em busca da paragem do autocarro 767 que levaria a primeira até ao Campo Grande.
Joana comentava o filme que tinham visto no Monumental: As Pontes de Madison County.
— Tu viste aquela ponte de madeira, Vitória? Muito gira! E os atores vão tão bem. Que história emocionante! — E, de voz embargada, desatou a soluçar compulsivamente, até à chegada do transporte da amiga.
Vitória, sempre serena, não emitiu palavra nem fez qualquer gesto em direção da afligida. Limitou-se a percorrer o rebordo do passeio, imitando os passos de passerelle dados por Meryl Streep, à beira da ponte, numa cena do filme.

Joana não teve outro remédio senão sofrer sozinha a sua dor inconfessada. Não deixou, porém, de recordar, de um flash, como a mesma Vitória, dias após terem ido ao cinema ver o filme A Casa da Rússia, exibira exatamente o mesmo penteado que Michelle Pfeiffer. Dois plágios perfeitos.
Lídia Vieira



Eu não plagio, apenas parto de um autor e chego a outro, como bóias no mar revolto dos pensamentos, mar que chega à praia surfando nas ideias e morre na areia compondo um crochet de palavras.
                                                                                                                                   Helena Campos



Sentia uma febre do tamanho de quatro homens encapuzados. Já não suportava o contacto do veludo à volta do pescoço - era tecido ou era pele? Ela voltou com a garrafa de champanhe e o colar de pérolas de fogo que não ardiam.
- Toma mais – disse, como se oferecesse um pouco da sua dor.
Todos os dias declarava a guerra, todos os dias perdia a guerra. Tomou mais um pouco do veneno e voltou a cair no abismo.
                                                                                                                                          Cristina Borges

(imagem: unsplash.com)

Pirataria - parte I - pilhagem



Sessão: 26 de Outubro
TEMA: PIRATARIA
Intertexto, pastiche, homenagens. Escrever a partir dos textos de outros.

Parte I: pilhagem

O processo: textos inspirados ou escritos a partir trechos copiados, recortados, pilhados de vários livros. Nuns casos, ligando os excertos com texto próprio, noutros, nem por isso.



Solstício

Havia um rasto de folhagem danificada que descia. Quanto mais pensava naquela situação, mais assustada focava. Sim, estava metida em tudo aquilo. Até ao pescoço. Havia as pequenas contas luminosas a que chamavam “pérolas de fogo”, mas não eram pérolas e não ardiam.
Minutos…
Segundos…
Que foi que eu fiz?
Nunca iria conhecer o seu filho, mas não tinha de pedir desculpas a quem quer que fosse pela forma como se movimentava através do Espaço-Tempo normal. O pequeno compartimento só tinha espaço para duas pessoas. Como já não havia necessidade de segredos, estavam ligados. As únicas pessoas que os podiam escutar estavam mortas há meio milhão de anos sem sequer uma palavra escrita deixada para dizer o que andavam a fazer. Tinham impregnado todo o nosso mundo. Eram tudo perguntas e não muitas respostas. Nós nem sequer sabíamos como se chamavam. Contudo, havia um afrouxamento das tensões, um alívio que surge quando uma viagem está no fim.

Disse-lhe para continuar. Um anel ardente em volta do seu corpo já era visível. Nunca se saberia se há alternativa. Posso estar errada, mas eu sabia: não havia. Podia admitir estragar tudo em outros aspetos, mas voltava a fazer-te cair no abismo.
Francisco Feio



Viagem

Um barulho estranho fez-me abrir os olhos. Quatro homens encapuzados entraram pela sala
adentro. Fiquei petrificada. O meu grito entalou-se na garganta. Fui manietada, amordaçada e
metida numa limusina. Não sabia para onde me levavam, nem o que poderiam querer de mim.
Entretanto, ouvi alguém dizer:
“A dor é tudo.
A dor é tudo o que há.
Toma um pouco da minha, querida,
Suga um pouco da dele. Sim, a dor é tudo” …
E depois foi o encontro e a atracação. A nave estremeceu de novo – fortemente. Portanto, o
encontro completara-se. A Delta Orionis e a Epsilon Sextans, os seus propulsores sincronizados, unidos pelos cabos da nave salvadora, caíam agora como um só através das imensidades negras. O encontro completara-se – e os sobreviventes estavam agora a ser trazidos para bordo e ajudados a sair dos seus malcheirosos fatos espaciais para contarem a sua história a Craven e aos seus oficiais. Grimes podia também imaginar isso, quase tão claramente como com os seus próprios olhos. Os engenheiros deviam estar agora a invadir os destroços, com equipamento de soldadura, aproveitando a chaparia não essencial das estruturas da nave para tapar os rombos. Continuaram à espera. Compuseram à vez a cabeleira ou o cabelo, endireitaram as rendas do pescoço e dos punhos, a gravata e a casaca. E voltaram a olhar para fora. O sol mudara já de posição, deixando de iluminar a câmara.

Livros utilizados: Como folhas ao vento, Emília Leitão; Reflexos do futuro, Col. Argonauta, Missão de vingança, A. Bertram Chandler, Col. Argonauta e Um príncipe quase perfeito, Maria João da Câmara
Rute Gonçalves



A guerra cria um outro ciclo no tempo. Já não são os anos, as estações que marcam as nossas vidas. Já não são as colheitas, as fomes, as inundações. A guerra instala o ciclo do sangue. Passamos a dizer antes da guerra, depois da guerra. A guerra engole os mortos e devora os sobreviventes.
 Assim é com a guerra como com a doença. É inaugurado um novo tempo – o corredor da morte. Vamo-nos despedindo aos poucos de um mundo que nos passa a ser indiferente, na sua sede de dinheiro, na sua ambição e ódio cego, na sua voragem e até nos seus constantes fracassos.
Sim, até o eterno fracasso nos passa a ser indiferente. É a paz da última hora que nos chama, a quietação do ocaso da alma, o esfumar-se no vazio, o calarem-se definitivamente todas as bocas.
 A morte é a curva da estrada, morrer é só não ser visto.

Textos utilizados: A Varanda do Frangipani, Mia Couto, citado em Momentos de Aqui, Ondjaki; verso de Fernando Pessoa. 
Helena Campos





O anfiteatro encheu-se de mais uma das minhas sonoras gargalhadas. Muitos desejavam saber porque assim ria, mas não tiveram sorte. Ficaram-se pela cogitação.
Reuni os amigos e todos sentimos imediatamente um pequeno impulso. Estava a funcionar. Sorrimo-nos todos uns para os outros e eu fui ao meu cacifo buscar a garrafa de champanhe que reservara para a ocasião… Rodei a chave, mas não consegui abrir a porta. João acenava-me ao longe enquanto o meu sorriso desmaiava.
Bolas, logo uma garrafa tão cara! Tenho de controlar os meus impulsos nas compras de Natal! Especialmente, no El Corte Inglès. A chave entortou. Como pude ser tão estúpida? Ah, já sei, foi quando a usei para tirar as pilhas do comando do computador. E agora, o que é que eu faço?
— Sílvia, querida. Porque é que ficaste assim? — interrogavam-me os meus amigos. Seja o que for, procuramos outra solução!
Endireitei a chave e recuperei-a de um puxão. Subimos a rua dos Duques de Bragança e dirigimo-nos ao Bairro Alto.

— Oh, Sílvia, por esta é que não esperávamos! Até sevilhanas dançaste! Queremos mais serões assim — comentou o Filipe Calado em final de festa, já muito alegre. Concordam, malta? 

Textos utilizados: D. Teresa de Távora de Sara Rodi, Reflexos do Futuro de Bruce Sterling
Lídia Vieira





Toda a gente perguntava, mas ninguém sabia quando é que o rapaz ostra saía.
Podia lidar com a simples deslocação dos objectos. e o seu pé se transformasse numa gabardina e o cimo fosse o baixo, estava bem dentro da sua tolerância do caos. Podia suportar até certo ponto uma mistura do tempo. Mas não podia aceitar o facto de um sentido trocado por outro, do tempo repetido e entrelaçado de forma a que os paradoxos se encontrassem profundamente enterrados.
Dentro da sua cabeça não havia doces nem presentes; só umas quantas baratas de tamanhos diferentes.
Sentia-se hipnotizado, pedido num vago e perturbante sono em que o Passado, o Presente e o Futuro estavam inextricavelmente misturados.
As palavras saíam-lhe agora de uma forma quase natural.
- Penso – respondeu lentamente.  – Interrogo-me sobre uma série de coisas. Nada faz sentido, e por isso, ao fim de algum tempo, deixamos simplesmente de pensar. Calculamos que de qualquer forma, não iremos compreender a resposta.
Partiu enfim. E a sua memória perdeu-se numa maré cheia.

Livros utilizados:  Missão de vingança, A. Bertram Chandler, Col. Argonauta, Fumos de Sonho - I, Tricia Sullivan, Col. Argonauta, A Morte Melancólica do Rapaz Ostra, Tim Burton

Cristina Borges